24/11/2009

Descortinando o presente

É ouvindo “Trouble” (Coldplay), que descortino um passado tão presente em mim. Foi mais ou menos por essa época que uma cortina foi puxada à minha frente (será que fui eu que puxei?), como um divisor de águas entre uma “velha” e uma “nova” eu. E no final foi bom, quer dizer, foi dolorido, e eu sabia que estava sendo um ano diferente. Fiz até uma pausa, uma análise, antes. Aliás, fiz mentalmente várias, inúmeras e incontáveis divagações.
E esse blog, por mais inofensivo que pareça, cumpriu um papel importantíssimo (ai, eu deixei isso aqui meio abandonado esse ano...). Foi refúgio, terapia e uma maneira de me comunicar com os meus fantasmas. E sim, eles existem! E me responderam!
E não, decididamente, não há coisas que devam ser entendidas, assim, de imediato.
Em resumo, às vezes a gente se sente como na música: “Oh, não, eu vejo uma teia de aranha e sou eu no meio”.
Mas, ainda há tantas e tantas cortinas a serem puxadas, não é mesmo? Quem será que coloca elas à nossa frente?

08/11/2009

De-fi-ci-ên-ci-as

"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.

"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:

"Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.
( Mario Quintana)
PS: Eu precisava mudar de assunto aqui nesse espaço. Então, aproveito essa mensagem que li essa semana e deixo aqui, até o dia em que eu mudar de assunto de novo...

14/10/2009

Em defesa dos/das hermafroditas

Domingo foi um dia, assim, digamos, cheio de assunto. Começou com uma ligação do meu pai, por volta das 10h. Estava no hospital em virtude de um passamento. Vez por outra tem dessas.
Fui ao seu encontro. Lá no pronto-atendimento cardíaco, o meu pai estava na estatística por mim levantada de três a quatro homens para uma mulher atendida. O que me fez lembrar dessa campanha na televisão sobre a política nacional da saúde do homem, do Ministério da Saúde.
Entretanto, a única mulher que estava lá era o pior caso e teve uma parada cardiorrespiratória. A equipe médica se mobilizou toda, desfibrilador pra um lado, balão de oxigênio pro outro e “Dona fulana, respire! Respire, Dona fulana!”, insistentemente. Por felicidade e obra dos anjos, Dona fulana foi retornando e soube depois que fez um cateterismo e retomou a condição de ser vivo.
Mas, voltemos aos homens. Papis estava dormindo nessa hora e só soube depois do que ocorrera no P.A. Depois ficamos calados ouvindo os murmuros dos leitos vizinhos, separados por umas cortinas de um material azul claro que mais parecia um prenúncio de que o céu estava próximo. E isso não tinha distinção entre paciente e acompanhante. Mesmo assim, acho que o paciente devia ficar mais desconfiado.
Eis que começa um senhor a discutir com mais outros homens numa conversa de que “Não me venha com essa história de que isso é uma coisa genética, que não é. Isso é uma tendência da pessoa”, ou coisa do tipo.
Estavam falando sobre homossexualismo. Meu pai balançou a cabeça de forma negativa e cochichou comigo “Se for desse jeito, como é que ficam, então, os hermafroditas?”.
Eu consenti com o pensamento, mas não pude deixar de lembrar que essa fora uma das perguntas que fiz a ele quando tinha uns sete anos e o interrompi numa leitura na rede do terraço com a pergunta: “Pai, o que é um hermafrodita?”
“Hermafrodita é a pessoa que nasce com os dois sexos”, nunca me esqueci dessa resposta, pausada, que ele me deu. E, claro, ainda passei um bom tempo sem entender.

Será que eu devia ter pedido pra ele desenhar?

09/09/2009

Ensaio sobre a surdo-mudez

Peço que hoje, somente hoje, você faça silêncio. Não murmure, não diga que não vai conseguir. Apenas faça silêncio. Desligue a televisão, deixe-a para depois. Só por um dia. Nada de música. Evite falar. E, veja, não é necessário nenhum esforço para isso...

É. Prometa. Amanheça e se espreguice em silêncio, coma bem, mas somente o necessário, não precisa sorrir, mas, em silêncio, continue. Escove os dentes, enfrente o trânsito, compartilhe o elevador público, leia o jornal e tire suas conclusões. Em silêncio.

Escute o nada.

(...)

E ouça tudo o quanto ele tem a lhe dizer.

26/08/2009

A nova proposta da abóbora

Eu adoro programas de culinária. Geralmente assisto aos do GNT, que são muito bons. Uma diversão, imaginar que eu poderia degustar aqueles maravilhosos pratos, ou pensar em fazê-los de maneira tão competente quanto os próprios apresentadores culinaristas. Mas, claro, na cozinha, assim como na moda e na vida, existem as tendências. Por exemplo, essa coisa de dieta. Tem a do peixe, a dieta do tipo sanguíneo, a dos grãos e frutas; a Mediterrânea e blablablá. Quando surge uma dieta nova, pronto, vira uma febre.
Se há uma tendência que veio com tudo foi a expressão “uma nova proposta”. Seja de uma cor, de um corte de cabelo ou de um look geral. Todo mundo tem uma nova proposta nessa vida. Ainda bem. Pode ser até mesmo uma coisa velha, mal acabada e mal amanhada, mas que veio - adivinhe! - com uma nova proposta e aí virou tendência. Sabe como é.
Mas, num desses programas de culinária totalmente tudo, a chef de cozinha estava lá fazendo uma combinação para ser degustada com uma marca de cerveja encorpada, a mesma que patrocina o próprio programa, que não é barato, frise. Pois que a chef, enquanto preparava um pato (não lembro direito, mas tinha cerveja na receita) e estava conversando com os convidados, sai com essa: “Olha, existe uma nova proposta da abóbora, que é oferecê-la crua para ser degustada”.
Eu juro que paralisei com essa nova tendência da abóbora. E ela continuava explicando que a abóbora crua tinha um sabor diferente, mas que no final tinha gosto de... abóbora! Jura?
E eu não digeri essa informação. Porque, assim, a abóbora está lá na sua frente crua e eu imaginando o que seria “a nova proposta da abóbora”. Claro que o toque mágico da “entrada” está na forma do corte da abóbora (sim, essa era a entrada!). Mas, pense aí numa abóbora gigante olhando pra você e se oferecendo no cru.
É nessas horas que eu desisto da proposta de ser chique...

21/08/2009

Teoria do buraco da minhoca II

Por incrível que pareça, a procura pelo assunto “buracos de minhoca” é o que mais movimenta visitas ao meu blog. E esse é um tema que não domino e que nem deveria assumir assim tão abertamente, uma vez que estou bem visitada graças ao Google e talvez possa ser chamada para participar de conferências. Mas, diante de tantas visitas e curiosidades, eis que me estala uma nova divagação sobre como chegar ao buraco da minhoca (com seriedade, por favor).
Porque - eu ainda tento entender -, há muito mais dimensões do que essas três (comprimento-altura-profundidade), nesse universo. Oquei, mas se existem, assim, tantas dimensões, como fazer para entrar num desses portais chamados buracos de minhoca, capazes de nos levar para outra relação tempo-espaço? (se o caro leitor não estiver entendendo bulhufas, clique aqui, não que isso vá esclarecê-lo mais).
E eu já tinha dito, os buracos negros é que são considerados os possíveis portais para o buraco de minhoca (eu não disse, de fato; quem disse foi o Wikipédia). Tenho tentado encontrar um buraco negro para experienciar as ditas dimensões. Imagine só, um tempo-espaço com vinte dimensões! Nada escapa do buraco negro, que suga matéria e luz. Só que na outra ponta do buraco negro há o buraco branco, que cria matéria e luz. Essa é uma das razões para a discussão científica do buraco da minhoca.
Os buracos negros não despertam tanto interesse do senso comum como a lua (quem trocaria uma visita à lua para entrar num buraco negro?), mas conseguir entrar num portal desses bem que seria um grande passo para a humanidade.

16/08/2009

Yolanda

Uma mulher belíssima. A confirmar pela foto. E pelo olhar.
Era daquelas pessoas que vez por outra deixavam escapar no ar uma frase bem certeira, como quem não quer dizer nada e diz tudo. Pois que a mensagem tinha endereço e quem quisesse que buscasse na caixa dos Correios!
Eu me lembro do dia em que fui à casa de voinha vestida de bailarina. Eu, magra feito um sibite baleado, como dizia o meu pai, mas que comia até pedra se cozinhasse, vestida num maiô rosa e numa meia calça que sobrava nas minhas canelas finas, tipo “minha nossa, mas o que é isso?”, querendo absolutamente desaparecer do mundo, quando ela percebeu o meu constrangimento e disse “mas você está tão bonita!”.
A minha vontade era de chorar mais ainda.
O que marcou mais foram os encontros de final de tarde, com muito café (que eu não tomo), pão trazido da padaria há pouco tempo e manteiga de lata Aviação ou Itacolomy. Muitas conversas, risadas e arengas ao redor da mesa.
E eu ficava vendo tudo isso meio de longe, dividindo a atenção com a televisão e comendo o meu pão com manteiga.
(...)
Fiz feira essa semana e sempre que eu chego na parte das manteigas e vejo uma latinha de Aviação ou Itacolomy, eu me lembro dela. Cheguei até a colocar uma no carrinho, mas a censura do “olha o regime” no final falou mais alto, na hora de passar no caixa. Sem graça.